Contos Carnoiós

Contos Carnoiós

terça-feira, 29 de março de 2016

II

A leda invasão


À noite, ela me tocou com um afago diferente, com o desejo esquecido de tempos atrás, quando me comprara. Passou minhas páginas, conduziu-me adiante no tempo do registro de minhas memórias. Escandiu-me. E eu, como bom serviçal, conduzi-la à época da invasão de nossas terras.
Chamavam-me Nutidzé Ia’ka. Eu era menina ainda, meu pai havia morrido na batalha contra os terríveis Tarariús. Minha mãe, Bâké Oroo[i], sempre me falava das aventuras dele, dos seus heróicos feitos, do modo como se conheceram.
Porém, um dia, correndo por entre a vegetação e brincando com pebas, preás, tejus, raposas e outros bichos, notei um estranho barulho próximo do rio que cortava as duas serras. Impulsionada pelo capricho de minha herança paterna, desci a averiguar o que trazia tamanho rumor.
Como minha família estava a cultivar as terras do outro lado da serra de Carnoió, senti-me livre para prosseguir com minha aventura.
Corri o mais que pude até avistar fumaça que saia daquele acampamento. Reparei pessoas sem cor e com muitas peles vestidos. Algumas levavam galhos nas mãos presos a um tipo de couro que impedia que o sol tocasse suas faces. Estas, as mais enfeitadas, estavam envolvidas em peles brancas e vermelhas.
Vi também outros que carregavam lanças diferentes: curtas e sem pontas e que produziam um barulho ensurdecedor, capaz de afugentar as aves e os pequenos animais.
Eu ainda procurava posição melhor para ver aquela tribo estranha, quando um líder guerreiro de minha tribo pôs sua mão em minha boca e abraçou-se comigo, erguendo-me e levando-me para distante dali. Foi então que eu percebi que os homens de minha raça já se punham em postura de batalha. E em seus olhos havia uma fagulha de pavor que nunca antes eu tinha fitado em ninguém que fosse do meu povo.
Deram o sinal de ataque, mas os estranhos de pele branca e rosada pareciam esperar a investida iminente. Pois, logo que ouviram o brado de ataque, já se punham armados com suas lanças barulhentas. Ao grito de guerra daquele povo incolor, ouvia-se apenas o canto das lanças e o baque dos guerreiros do povo Carnoió.
As mulheres, no acampamento, já choravam a perda de seus bravos. Lamentavam também por suas vidas, mas tínhamos a esperança de que ao menos as mulheres e crianças seriam poupadas.
Como o número era desigual, foi uma verdadeira carnificina. Qual deus em sua cólera não trataria de apaziguar a si mesmo por piedade daquele povo já vencido? Não demorou para saber-se o resultado. Fomos vencidos e humilhados.
Terminada a batalha, e com o tempo, muitas de nós fomos tomadas como escravas e trabalhávamos nas casas dos barões.
Aprendemos a linguagem daquele povo pálido. Eles eram os Oliveira Ledo. Investiram contra nossa tribo pelo prazer da conquista. Tomaram o que era nosso, espalharam por nossas terras animais estranhos, destruíram nossas matas, circularam nossas terras de cordões de ferro preso a estacas de madeira fincadas ao chão e guardaram naquele cercado aquela multidão de bicho.
Vestiram-nos com o que depois aprendemos a chamar de tecido. Ensinaram-nos suas gravuras em papel. Mostraram-nos seus deuses que eram três e que um havia morrido. Senti, de certo, uma aproximação com aquele deus rejeitado e sacrificado, mas que depois tornou a viver e pus no coração a esperança de ver novamente o povo Carnoió reerguido. Tempos mais tarde ensinaram-nos que aquele Senhor Deus era o puro amor e trataram de nos adornar de cruzes, enfeites, leis e rituais incomuns.
Tempos depois, aquela família de povo branco de Oliveira Ledo multiplicara-se e tratava de campear as terras próximas. Subiram o rio, enfrentaram os outros povos e dominaram tudo para além do horizonte. Os que de nós restaram, acabaram se misturando com aquele povo estranho. Fomos todas tomadas, não por esposas, mas por amantes, mesmo à revelia. Apanhávamos quando nos recusávamos a guardar a semente de uma mistura que resultaria na nossa extinção, como assim o foi. E tudo ficou escuro agora. Fechou-me e me fez repousar sobre o criado junto a sua cama.




[i] Bâké  (filha da irmã) Oroo (papagaio).

2 comentários:

Anônimo disse...

Bom texto meu primo. Uma leitura que aguça nossas subjetividades. Aqui temos a Literatura como reflexão social. Isso humaniza, pois são nossas história que não morrem e dão prazer. Isso tem que ser contado, tanto escrito quanto na oralidade. Parabéns pela criatividade. Uma Literatura regional, simples, mas muito valiosa para a nossa região. Acredito mesmo que cada região deve possuir e valorizar seus escritores, pois só assim mais pessoas iniciaram na Literatura Regional para depois tomarem gosto por uma Literatura Clássica e Universal. Gostei demais do texto/conto.

De Ricardo Múcio Macêdo de Araújo.

Kleber Brito disse...

Mais uma vez agradeço pelas ponderações. Sua contribuição é muito valiosa.