Página Rasgada
No
dia seguinte, uma manhã muito tranquila, já haviam cessado os rumores sobre
invasões, sobre guerras e outras intrigas. Os dois amantes pensavam-se perdidos
um no outro, trocavam carícias e presentes, davam-se a contemplação da vida
futura. A tristeza dos olhos dela havia sumido desde a hora em que ele voltou
lhe pedindo desculpas. Ela esqueceu de mim, “como não o havia de ser?”. E me vi
solitário, abandonado, desprezado como nos primeiros dias após minha feitura.
Foi então que lancei meu primeiro olhar sobre mim, já que estava tão próximo a
um espelho.
Não
me recordo de quando meu pai me gerou, apenas da viajem com meus irmãos, do
comércio que fizeram com nossas vidas, dos meus companheiros que fugiam um a
um, da minha espera por liberdade e do feliz dia em que a alcancei. Chegaram
aquelas pessoas, nos organizaram, limparam-nos... deixar-nos-iam prontos para
receber as visitas estranhas que repetidamente vinham a nossa efêmera pousada.
Aquele
rapaz esboçou o desejo de vir em minha direção, conteve-se, veio por fim,
selecionou-me e fomos juntos até o balcão.
Uma
jovem pôs uma linda roupa em mim, me ornou de fitas e adornos; paciente
aguardei, até ser envolvido em roupas artificiais, transparentes, plásticas.
Fomos
em boa hora alegrar com nossa existência o marco da passagem do nascimento
daquela que de pessoa humana herdara apenas o nome, visto, na verdade, ser ela
um anjo sublime ao qual se rendiam os olhares e as vidas. Abraçou-lhe primeiro,
agradeceu bastante, e meu ciúme aumentava a cada vez que ela massageava a face
do rapaz com um beijo. Contudo, na afetuosa forma com que ela pela primeira vez
me tocou, escaneou-me de alto a baixo, sorvia-me a forma, desejou-me de tal
forma que não se conteve em tirar com calma minha vestimenta, rasgou-a logo e
me enxergou ali entregue a seus olhos lindos e desejosos de saber o que eu
guardava em mim.
Mais
tarde, naquele mesmo dia, pude vê-la nua a se banhar em amores e desejei nunca
existir. Naquela cabeceira, bem ao lado do leito de prazeres, verti cada gota
de amargura que brotara de minha ilusão lacerante. Instantes depois, estavam lá
eles. A contragosto, conduzido fui até ali nas mãos deles, uma parte de mim
selecionada, tatuou-me um com caracteres, outro com desenhos, aqueles dois
sorrisos quase sóbrios. Além da lembrança, agora, havia em meu corpo as marcas
de um momento que pra mim foi dor, mas para eles seria infinito, embora eu
soubesse que não duraria muito aquele rapaz junto dela.
Como
eu pensara, vim saber depois de tempos decorridos que aquele mesmo que me
livrou do pó e do verme que rói a vida dos que narram e recitam o próprio
estado melancólico, amarga e raivosa pela perda grande que tivera.
Mais
que isso, bastava virar-se pra mim que sentia vontade enorme de me jogar e me
esfacelar; temi. Catou-me do chão frio e úmido, pegou-me com força, abriu-me e
em grande fúria amputou uma parte de meu ser. Quanta dor! Fui rasgado; extraiu
aquela parte que continha meu endereço, minha inscrição no tempo e no espaço,
minha indicação de paternidade, junto com aqueles dizeres de amor que haviam
sido inscritos no passado próximo. Quem sabe poderia ter dado cabo de mim, se
desfeito, porém não. Pois já tínhamos falado tanto sobre histórias antigas, que
resolveu guardar-me e esqueceu-se de mim por um longo tempo.
Todavia,
transposto esse episódio, percebe-se em mim a marca que tal ato me imprimiu, e
isso, apesar de me custar dores e dores, não passa hoje de apenas mais uma
página rasgada.
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